Felisberto - Escritor y músico Uruguayo (Montevideo 1902 – 1964) - Sitio Oficial

Português

Seleção:

  • O cavalo Perdido

  • Ninguém acendia as luzes

  • O balcão

  • O linterninha

  • As duas histórias

  • A casa inundada

  • Lucreia

  • O crocodilo

  • Explicação flasa de meus contos

  • Prólogo de Julio Cortázar

 Prólogo

Julio Cortázar

  Arriscando-me a provocar o riso de não poucos críticos literarios, penso que a obra do uruguaio Felisberto Hernández só admite ser comparada com a de outro criador, situado no extremo oposto do mundo latino-americano que ele conheceu: José Lezama Lima.
Entenda-se que falo de subjacências, de tangências, de afinidades que dificilmente se deixam descrever. Assim como o poeta e narrador cubano, Felisberto pertence àquela linhagem espiritual que já qualifiquei de pré-socrática, para a qual as operações mentáis só intervêm como articulação e fixação de outro tipo de contato com a realidade. Da mesma forma que os eleatas, Lezama Lima e Felisberto se conectam com as coisas (porque de algum modo tudo é coisa para eles, palavras, ou móveis, ou paixões, ou pensamentos são ao mesmo tempo tangíveis e inefáveis, sonho e vigília) a partir de uma intuição que só pode ser instalada na linguagem por obra da imagem poética, do encontro nada fortuito da máquina de costura com o guarda-chuva sobre a mesa de dissecação. Assim como nos eleatas, os sentidos não parecem submetidos às faculdades intelectuais para o processo do conhecimento, mas entram e saem das coisas com o ritmo do ar nos pulmões, e a passagem desse conhecimento para a palavra, para a comunicação, se dá dentro desse mesmo ritmo e com a mínima mediação possível. A partir desse contato sem travas, todo o resto – descrição, narração, enredo – serve-se naturalmente da razão e do discurso, chamados para um trabalho subsidiário a que não estão acostumados; assim, a tradição do Ocidente de quando em quando vê sua escala habitual de valores ser invertida, e o resultado é quase sempre o mesmo: se poucos parecem ter alcançãdo a mensagem primordial de Lezama Lima em Paradiso, também são poucos os que decifraram a chave profunda e recorrente dos contos de Felisberto Hernández.
Aqui termina a analogia, e o resto são felizes e vastas diferenças que enriquecem e separam a obra desses dois grandes narradores latino-americanos. Solitário em sua terra uruguaia, Felisberto não se rende a influências perceptíveis e vive toda a sua vida como que voltado para si mesmo, atento somente a interrogações interiores que o tiram da indiferença e do descuido cotidiano. Não por acaso a maioria esmagadora de seus relatos foi escrita em primeira pessoa (mesmo “Las hortensias”, grande exceção, parece também devolvê-lo ao personagem central do conto, no que diz respeito às pulsões mais profundas, talvez as mais inconfessáveis no contexto do seu ambiente e do seu tempo). Basta iniciar a leitura de qualquer um de seus textos para que Felisberto esteja lá, um homem triste e pobre que vive de concertos de piano em clubes do interior, tal como ele sempre viveu, tal como nos conta desde o primeiro parágrafo. Mas assim que o reconhecemos mais uma vez – bom dia, Felisberto, tudo bem com você? Será que tem um pouco mais de dinheiro, que seus quartos de hotel são menos horríveis, que desta vez vão te aplaudir nos teatros ou cafés? Será que essa mulher que está te olhando te ama? -, nesse reconhecimento que ocupou apenas uns poucos parágrafos logo outra coisa se instala, o salto fulgurante para a única coisa que vale para ele: o estranhamento, o indizível contato com o imediato, ou seja, com tudo aquilo que constantemente ignoramos ou afastamos em nome do que se chama viver.
Esse deslizamento ao mesmo tempo natural e sub-reptício, que logo de saída faz um relato cinzento e quase costumbrista passar para outros níveis em que a alteridade vertiginosa está à espera, só pode ser sentido e seguido por leitores dispostos a renunciar ao linear, à mera esquisitice de uma narração em que acontecem coisas insólitas. Pois se há uma certeza quanto aos contos de Felisberto é que não são insólitos, na medida em que seu inevitável protagonista também é inevitavelmente fiel à sua própria visão e não faz o menor esforço para explicá-la, para estender pontes de palavras que ajudem a compartilhá-la.
A qualificação de “literatura fantástica” sempre me pareceu falsa, e até um pouco fanfarrona nestes tempos latino-americanos em que setores avançados da leitura e da crítica exigem cada vez mais um realismo combativo. Relendo Felisberto, cheguei ao ponto máximo dessa recusa do rótulo de “fantástico”; ninguém como ele para dissolvê-lo num inacreditável enriquecimento da realidade total, que não apenas contém o verificável mas também o assenta no lombo do mistério, assim como o mundo sobre o elefante na cosmogonia hindu. No dia em que a América Latina cumprir seu destino revolucionário, qualquer um poderá ler Felisberto com a familiaridade que hoje falta a muitos leitores; então teremos entrado numa dimensão humana que não precisará distinguir com artifícios retóricos essas zonas de contato que em escritores como ele anunciam a verdadeira terra do homem e da vida.
Sempre secretamente angustiada, a crítica literária chamada a situar uma obra como a de Felisberto tende a tirar da cartola o grande coelho branco do surrealismo; é um modo de fixar a imagem antes de mudar de assunto, quando de resto é verdade que o coelho está bem vivo e passeia continuamente sobre o piano de Felisberto. Basta ler “A casa inundada” ou “Las hortensias” para ver surgir no avesso das pálpebras as pinturas de Leonora Carrington, de Remedios Varo, de Hans Bellmer, de Paul Delvaux e de Magritte, sem falar nas queridas sombras mais remotas de Nerval ou Von Arnim. Mas também aqui opera a manobra discriminatória que Felisberto teria sido o primeiro a repudiar. Até quando se insistirá em situar o surrealismo num terreno falsamente privilegiado, que é um jeito de deixá-lo a margem de uma realidade supostamente mais imperiosa e importante? Até quando o absurdo magistério surrealista, fomentado primeiro por Breton, mais tarde por seus epígonos, e sempre por uma certa crítica ávida de rótulos simplificadores?
É bom lembrar que Felisberto veio uma vez a Paris, onde provavelmente não se encontrou com ninguém; gosto de pensar, com evidente transgressão da cronologia, que se ele resolvesse ir ver seus semelhantes, não teria procurado a Igreja do surrealismo, e sim Jarry e Raymond Roussel. E este último, grande inventor de quadros vivos, teria amado como ninguém as bonecas de “Las hortensias” e as fôrmas flutuantes de “A casa inundada”, lindas como as altas criações de seu taumaturgo Canterel.
Para alguns de nós, gente do rio da Prata, não importam nos relatos de Felisberto essas coexistências que pouco lhe teriam interessado, mas que me parece justo mencionar para quem o venha a ler pela primeira vez na Espanha.* O que amamos em Felisberto é a simplicidade, a total falta daquele empolamento que deixou a literatura de seu tempo tão engomada. Totalmente entregue a uma visão que o desloca das circunstâncias ordinárias e lhe dá acesso a outra ordenação dos seres e das coisas, Felisberto nunca se dá ao capricho de refletir sobre seu país, sobre o que está acontecendo no plano histórico, e até se poderia dizer que o olhar dele se detém nas paredes a seu redor, sem se esforçar para extrapolar suas experiências ou para entrar numa estrutura específica de paisagem ou de sociedade. Então, sem nenhum paradoxo, embora alguns possam pensar assim, cada um de seus contos tem a terrível força de instalar o leitor no Uruguai de seu tempo, e a mim basta relê-Ios para me sentir outra vez nas ruas de Montevidéu, nos cafés e hotéis e ñas cidadezinhas do interior onde tudo acontece com desânimo, como ele daria aqueles concertos de piano cheios de traças, e contas vencidas, e ternos alugados. Deve-se pedir mais a um narrador capaz de aliar o cotidiano ao excepcional a ponto de mostrar que eles podem ser a mesma coisa?
O drama atual do Uruguai está prefigurado em Felisberto, assim como na obra de Juan Carlos Onetti, outro narrador que aparentemente prescinde da história. Nossas falências – falo do Uruguai e da Argentina como um só país, porque o são, a despeito dos nacionalistas -, nossa força secreta ou desmesurada, nosso lento e preguiçoso modo de ser perante o destino planetário, toda a beleza e a tristeza de um pátio de uma casa pobre ou de uma partida de baralho entre amigos irrompem nessa espécie de invencível desencanto que nasce dos contos de Felisberto. Testemunha sem vontade, espectador oblíquo, ele toca seus tangos para mulheres nostálgicas e empetecadas; como todos os nossos grandes escritores, ele nos denuncia sem ênfase e ao mesmo tempo nos oferece uma chave para abrirmos as portas do futuro e sairmos ao ar livre.

*Este texto foi publicado como “Prólogo a La casa inundada y otros cuentos” (Barcelona: Editorial Lumen, 1975). [N. T.]

Tradução de Paulo Werneck

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